Comer sozinho (calma, este não é um post de autocomiseração) | Eating alone (relax, this is not a pity-post)


source | newyorktimes.com

Há alguma coisa de corajoso e de empático, mas também de inquietante, em posts que expõem as dificuldades da vida a um (aqui)… mesmo quando essa vida a um acontece com mais dois ou três (aqui).
Tenho apenas uma coisa a dizer: sim, é duro, mas não estão sozinhos!
Fala-se em 30% de pessoas que moram sozinhas em Inglaterra e, nas grandes cidades americanas, o número varia entre os 40% e os 50% (este mapa é surpreendente). Em Lisboa, o número ronda os 20%.

There is something courageous and empathetic, but also unsettling, in posts about the difficulty of living alone (here)… even when that happens with more two to three (here).
I have only one thing to say: yes, it’s hard, but you are not alone!
There’s about 30% of people living alone in England and, in large American cities, the number varies between 40% and 50% (this map is amazing). In Lisbon, the figure is around 20%.

mapa ny
source | newyorktimes.com

Há momentos em que, de facto, esse número singular é bastante difícil ou, até mesmo, constrangedor… “One is the loneliest number”, já cantava a Cat Power…
No meu caso, essa dificuldade apresenta-se em duas situações: ir sozinha a um casamento e jantar fora.
Já alguma vez passaram pela experiência de comparecerem sozinhos em casamentos? Realmente sozinhos? Quando não conhecem mais ninguém além dos noivos e um ou outro amigo destes, com quem se cruzaram duas ou três vezes na vida? Não recomendo! Sinceramente, só nos filmes é que a façanha de aparecer sozinho num casamento parece dar bom resultado…
E depois há o jantar fora sozinho. Não tenho qualquer problema com almoçar sozinha… ocasionalmente, poderão encontrar-me a almoçar sozinha aqui nas redondezas, enquanto apanho sol na esplanada (já apanhava um solinho numa esplanada), com o iphone numa mão e uma sandes de pasta de azeitona e queijo da ilha na outra, ou enquanto como uma bela salada de frango que remato com um delicioso eclair de chocolate, macarron ou uma outra delicatessen de origem francesa. Ou então quando, entre um mar de gente que se acotovela para arranjar mesa lá para as 13h, sujo as mãos com um delicioso prego yuppie e me pergunto porque razão a carta ainda não tem uma sobremesa de chocolate. Quando almoço sozinha faço-o porque são 13h e só me apetece sair do atelier e porque, nem sempre, os colegas querem o mesmo. Ou então só porque sim, porque o que me apetece mesmo é estar sozinha e ver pessoas diferentes, ou então pôr-me a par das últimas horas nas redes sociais.
Mas depois há a noite e, à noite, comer sozinho é, quanto a mim, coisa para corajosos.
Lembro-me que em Copenhaga, num restaurante cool em Kød Byen, a zona do matadouro, a presença de uma rapariga sentada sozinha no fundo na sala, apreciando a sua refeição acompanhada de um copo de vinho, foi pretexto para quase uma hora de conversa entre mim e os meus amigos. Chegaram a surgir ideias de a abordar e convidá-la a sentar-se connosco… até porque estávamos em número ímpar. Quando a Kerry Washington bebe o seu copo de vinho sozinha em Scandal, linda e tendencialmente vestida dum branco imaculado, ou a Julianna Margulies faz o mesmo em The goodwife, não tão linda mas igualmente impecável, as personagens, apesar de se apresentarem lindas e cheias de classe, não deixam de transparecer uma qualquer tensão ou aflição a que foram sujeitas instantes antes.
A bonita rapariga loura de Copenhaga transparecia o oposto. Havia nela um aparente conforto e uma segurança, enunciados no copo de vinho que segurava na mão direita e na forma relaxada com que apreciava a comida, que nos dissuadiram desta ideia. Não havia ali aflições, tensões ou ansiedade. Apenas uma esmagadora e inquietante tranquilidade.
Que faria ali sozinha em Copenhaga aquela bonita rapariga loura?
“Uma miúda tão gira como ela”, pensávamos nós, “porque não terá companhia?”, como se a solidão fosse condição exclusiva dos feios.
“Ahh, deve ser de fora, está cá a trabalho, e por isso veio jantar sozinha”. Confirma-se, essa seria uma boa razão para alguém jantar sozinho. Algumas vezes me vi nessa situação pela mesma razão, mas isso, no meu caso, significava pegar numa tosta ou numa sandes e refugiar-me dos olhares alheios enquanto ingeria os nutrientes tão rápido quanto possível.
Por isso, nessa noite, enchi-me de admiração, e de uma certa inveja, por essa rapariga lindíssima que comia pizza e apreciava vinho na pizzaria cool em Kød Byen.

Claro está que, hoje em dia, tudo parece ser sinónimo de nicho de mercado. A solidão não é excepção e é vista como uma oportunidade de negócio.
Em Amesterdão, alguém pensou que livrar o solitário do fardo emocional que, geralmente, acompanha o comer sozinho num restaurante, era um bom caminho de negócio. E assim nasceu o Eenmaal, uma espécie de restaurant pop-up e “the first one-person restaurant of the world”.
Aqui, as mesas são todas para um, prometendo-se uma refeição shame-free, já que todos partilham a mesma condição.
E depois há redes sociais específicas para quem tem pudor em comer sozinho. Aqui podem procurar uma companhia para almoçar ou jantar (aparentemente em Lisboa ainda não).
E depois há um pouco de tudo: redes sociais para quem quer receber alguém em sua casa e partilhar uma refeição, redes sociais para quem quer cozinhar e partilhar a refeição com os vizinhos, redes sociais para quem quer vender os restos da sua refeição, porque, convenhamos, é difícil encomendar doses para um e acertar ou então, os supper clubs, uma tendência de jantares em que, geralmente por uma quantia avultada, nos inscrevemos para partilhar refeições caseiras com um grupo de estranhos.

There are times when, in fact, this unique number is quite difficult or even embarrassing… ” One is the loneliest number”, Cat Power sang…
In my case, this difficulty surfaces in two situations: going alone to a wedding and dining out.
Have you ever had the experience of attending a wedding alone? Really alone? When you do not know anyone but the bride and groom and one or another friend of theirs, with whom you crossed paths two or three times in life? I don’t recommend it! Honestly, only in the movies, appearing alone in a marriage seems to end up well…
And then there is dining out alone. I have no problem with lunching by myself… occasionally, you can find me lunching alone nearby,catching the sun on a terrace (i wish I could do that now), with the iphone in one hand and a cheese and olive spread sandwich on the other, or having a beautifulchicken salad followed by a delicious chocolate eclair, macarron or another delitessen of french origin. Or when, among a sea of ​​people who tries to get a table there around 1PM, I get my hands dirty with a delicious yuppie (beef sandwich) and wonder why the menu does not have an indulging chocolate dessert. When I lunch alone I do it because it’s 1PM and I just want to get out of the studio my colleagues don’t always want the same. Or just because yes, because I feel like being alone and seeing different people or catch up with the latest hours on social networks.
But then there is the evening and at night, eating alone is, from my point of view, a thing for the braves.
I remember that in Copenhagen, in a cool restaurant in Kød Byen, the Meatpacking District, the presence of a young girl sitting alone in the back of the room, enjoying her meal accompanied by a glass of wine, was a pretext for almost an hour of conversation between me and my friends. Ideas of invite her to sit with us were emerging… because we were up there in an odd number. When Kerry Washington sips her glass of wine alone in Scandal, beautiful and usually dressed with a spotless white, or Julianna Margulies does the same in The goodwife, not as beautiful but also impeccable, the characters, in spite of presenting themselves beautiful and full class, reveal a tension or affliction they were subjected to moments before.
The beautiful blonde girl in Copenhagen was the opposite. She had an apparent comfort and sense of security, set out in the glass of wine she held in her right hand and relaxed way in wich she appreciated her food, which dissuaded any idea of inviting her. There was no distress, stress or anxiety there. Only an overwhelming and unsettling tranquility.
What was that pretty blonde girl doing there, eating by herself, in Copenhagen?
“A girl so cute as her,” we thought, “why doesn’t she have company? “, as if the condition of loneliness was one reserved for the ugly.
“Ahh , she must be here on work, and so she came to eat dinner alone .” I confirm it, this would be a good reason for someone dining alone. Sometimes I found myself in this situation for the same reason, but, in my case, that means grabbing a toast or a sandwich and take refuge from the gaze of others and ingesting my nutrients as fast as possible.
So that night, I was filled with admiration, and some envy for this beautiful girl who ate pizza at the cool pizzeria and enjoyed her wine cool in Kød Byen.

Of course, nowadays , everything seems to be synonymous with a business opportunity. Loneliness is no exception and is seen as one.
In Amsterdam, someone thought that ridding the lonely ones from the emotional burden that often accompanies eating alone in a restaurant, was a good business opportunity. And thus was born Eenmaal a kind of pop-up restaurant and “the first one-person restaurant of the world.”
Here, the tables are all for one, promising you a shame-free meal, since everyone shares the same condition.
And then there are specific social networks for those who have issues with eating alone. Here you can search for someone to have lunch or dinner with (apparently not yet in Lisbon).
And then there’s a bit of everything: social networks for anyone who wants to have someone home and share a meal, social networks for anyone who wants to cook and share a meal with neighbors, social networks for anyone who wants to sell the leftovers of their meal because, let’s face it, it’s hard to order doses for one and hit it. And then there are supper clubs, a trend in which people, usually by a large sum, sign up to share home cooked meals with a group of strangers.

E depois há isto:
And then there’s this:


source | newyorktimes.com

Um senhor de 103 anos que resolveu gastar os ganhos de uma vida apreciando, todas as noites, S O Z I N H O, uma boa refeição num restaurante. Aparentemente, o seu budget diário para os jantares é de $100, mas Harry Rosen, que prefere dizer aos convivas das mesas vizinhas que tem 90 anos para que a sua verdadeira idade não se torne o centro de todo o diálogo, descobriu que, com a sua idade e comendo sozinho, muitas vezes os estranhos que conhece nessa noite já se adiantaram e lhe pagaram o jantar.
Ora isto é que é coragem. Quando for grande, quando tiver 103 anos, também quero ser como o Harry e ser suficientemente dona de mim para não ver problema algum em gastar os ganhos de uma vida (erghhhhh, ganhos?) a comer sozinha em restaurantes.
PS: Aparentemente, ajuda dormir de barriga para cima. Ele leu isso num jornal e desde então que o faz. Eh pá, o senhor tem 103 anos… mal não lhe fez😉

A 103 year old gentleman who decided to spend the earnings of a lifetime enjoying every night, A L O N E, a good meal in a restaurant. Apparently, his daily budget for the dinner is $100, but Harry Rosen, who prefers to tell others that he is 90 years old instead of his real age so that age does not become the center of the conversation, found out that, with his age and eating alone, often strangers came forward and paid him dinner.
Well this is what courage is. When I’m 103 years old, I also want to be like Harry and not having any problems in spending the gains of a lifetime (erghhhhh, gains?) eating alone in restaurants.
PS: Apparently , it helps to sleep on your back. He read it in a newspaper and since then he does it. Come on, he is 103 years old… it hardly did him any wrong😉

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